Aprendi a ler aos 4 anos, e por conta dessa habilidade, tive uma epifania interessante uma vez. Na situação em questão, eu me olhei no espelho e pude notar que minha camiseta (da Stereo Vale, rádio do interior de SP onde meu pai trabalhava) estava com os dizeres na estampa ao contrário. Fiquei fascinado por isso, tentei decifrar o que estava acontecendo ali. Finalmente entendi que o espelho invertia as figurar, e no processo de entender o conceito de figuras enantiomórficas, também me dei conta da minha própria existência como nunca antes tinha tomado consciência. E fui entendendo que tudo que eu fazia tinha consequências sobre o ambiente ao meu redor, e que tudo que acontecia no meu redor tinha consequências sobre mim. Claro, uma criança pequena ficaria assustada com esses pensamentos, e foi o meu caso. Em uma hipérbole para fins puramente dramáticos, eu poderia dizer que nunca mais na vida fiquei tranquilo. O que mais me incomodou, entretanto, foi uma possibilidade meio burra que me ocorreu: ninguém mais tinha essa percepção da vida. Arrogante, certo? Hoje eu sei que, apesar de muita gente só existir sem viver, a maioria das pessoas tem a mesma noção que eu tive naquele dia. Cada um descobre isso a sua própria maneira e em seu próprio tempo. Nem todo mundo tem responsabilidade sobre essa percepção. Caso contrário, o mundo seria um lugar muito mais tranquilo e todo conflito da ficção seria considerado puro absurdo.
Durante um período da minha vida, eu frequentei cultos da Igreja Adventista porque eu estudava num, pasmem, Colégio Adventista. Eu gostava muito da forma como eles lidavam com a espiritualidade e com as outras pessoas. Eles demonstravam um tipo de respeito que eu não vejo muito por aí, principalmente em algumas denominações religiosas que chamam bastante atenção. Talvez essa doutrina de harmonia e respeito fosse exclusiva dos Adventistas de Jacareí, mas gosto de pensar que tem mais gente pelo mundo pensando dessa forma. Além disso, meu avô se converteu e se tornou evangélico quando eu ainda era pequeno. Sim, todos nós sabemos dos erros cometidos em nome das religiões, mas posso assegurar que meu avô era boa pessoa, mesmo sendo hiperfocado na igreja. Conto tudo isso apenas para ilustrar o pano de fundo da educação cristã que recebi ao longo da minha vida. Eu me esforço para fazer bom uso daquelas reflexões, então gosto bastante da questão de amar ao próximo e toda a história sobre respeito pregada por Jesus, e escolho ver apenas como lendas e fábulas todas aquelas outras histórias sobre genocídio e afins.
Dada minha educação cristã e minha percepção, digamos, intensa sobre minha própria existência, lá pelos 6 ou 7 anos, fiquei obcecado por uma ideia um tanto quanto perigosa, apesar de nobre. Se Jesus tinha sido tão bom e poderia voltar um dia, que garantias eu tinha de que não poderia... ser Jesus? E tal qual um personagem de quadrinhos dos anos 60 e suas dicotomias deliciosas e educativas, assimilei que com grandes poderes vinham grandes responsabilidades. Então eu queria que o mundo ao meu redor fosse afetado pelas consequências das minhas ações, e que fossem boas! Uma criança meio doida, mas muito bem intencionada, sim, pessoas de todos os tipos. O problema é que minhas primeiras ideias foram curar as dores nas pernas da minha avó com a força do pensamento e colocar minha mão no fogo pra ver se Deus me protegeria.
Minha mãe me impediu de botar a mão no fogo.
Depois de explicar pra mamãe o motivo de eu ter feito aquilo, ela pediu para o pastor e orientador pedagógico da escola, o Pastor Jefferson, conversar comigo. Ele foi muito legal. Aprendi que, dentro da crença de que Deus existe, eu recebi d'Ele o poder de ajudar os outros, como por exemplo, passando hidratante nas pernas da minha avó.
Desde então, só me machuquei por ser desastrado mesmo, e nunca mais numa tentativa insana de me provar um Messias.
Salve o dia você também.
Atenciosamente,
Fringon, o Replicante
sábado, 3 de abril de 2021
Complexo de Messias
segunda-feira, 8 de março de 2021
Digo
Infelizmente, a pandemia não acabou e ela tem levado muita gente. Entre essas pessoas, estava meu primo Rodrigo. A partida dele me deixou abalado como já era de se esperar. Por conta do aumento do número de contaminações e mortes, fui autorizado a voltar a trabalhar em casa temporariamente. Pretendo voltar a desenhar regularmente como eu fazia há alguns meses. Também quero estudar teoria musical pra dar vida a algumas outras ideias. Quem sabe não volto a jogar FPSs para me distrair também? Quem me apresentou aos FPS foi meu primo Rodrigo.
Que Deus o tenha em bom lugar.
Cuidem-se.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2021
Insônia
Venho tendo problemas para cair no sono à noite, mas não me sinto preocupado. Sinto que para resolver isso, preciso apenas voltar a organizar meus horários para pós-ano novo e trabalho presencial. Se isso se estender por mais umas duas semanas, aí sim vou consultar meu médico.
Tive problemas sérios de insônia por muitos anos, e se eu puxo na memória, vejo que eles surgiram ali por 2011 e demoraram muito tempo pra passar. Na época, eu vivia cheio de preocupações, que depois foram sendo substituídas por outras neuras e impedindo Morfeu de me mandar pro outro lado durante aquelas merecidas horas.
Durante as horas que eu não dormia, eu contemplava outros mundos e vidas que eu não tinha, vidas essas que nem sempre eu desejava ter, apenas gostava de contemplar. Entre as que eu queria ter, havia aquelas realidades em que um ou outro amor era correspondido, em que eu conseguia conciliar uma vida acadêmica com todo o resto e outras coisas que importam menos hoje. E entre as vidas que eu nem fazia muita questão de ter estavam realidades e/ou anseios de amigos próximos, como ter muitos amigos na faixa dos 30 ou apenas desejar ter isso, numa versão imaginária de São Paulo que se assemelha a uma mistura cartunesca de Londres com Nova Iorque, nunca amanhece e os únicos estabelecimentos possíveis são bares. Nunca quis muito isso, apesar de entender que possa ser divertido para alguns. Adolescentes que têm amizades com alguns tipos específicos de adultos não são mais maduros, apenas encontraram companhias imaturas (na possibilidade de não serem também companhias mal-intencionadas).
O que tirou meu sono deixou de ser a escola e a perspectiva de faculdade e passou a ser o trabalho, os resultados, os registros de erros eternizados na TV. Até que um dia tive uma crise fortíssima de ansiedade que me colocou pra tomar rivotril regularmente. Depois de um tempo, o medicamento foi trocado, felizmente, para o oxalato de escitalopram, que é menos agressivo e mais eficaz. As preocupações não sumiram magicamente, e algumas das antigas voltam vez ou outra, mas pelo menos consigo dormir.
Ou conseguiam. Torçam para que eu consiga regular o sono em breve, caros leitores calados.
Atenciosamente,
O Replicante
sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
Quem visualiza isso aqui?
Boa noite e feliz ano novo!
Parece que nos últimos tempos minhas publicações têm sido todas iguais. Isso é um problema mais seu do que meu, ninguém mandou você ler.
Falando em problemas que são mais dos outros do que meus, até que ponto meus hiper-focos são um incômodo? Queria ter uma medida prática que me ajudasse a calcular corretamente isso. Ultimamente tenho me importado muito com Star Trek. Talvez eu apenas goste muito do espaço, do frio e do silêncio que ele oferece. Nada sombrio ou tétrico, apenas meu conceito de conforto e sossego, afinal ter sossego é um dos meus maiores objetivos na vida. Hoje temos um especial de Ano Novo de Doctor Who pra variar um pouco o hiper-foco da vez. Já li opiniões negativas a respeito, mas imagino que eu deva curtir mesmo assim.
2011 pareceu um ano grandioso pra mim por muito tempo, mas em retrospecto as coisas especiais ali tenham sido apenas 3: a primeira vez em que me apaixonei, a primeira vez que desconfiei que eu poderia ser autista e a primeira vez que usei a expressão "curtir". Maldito Facebook. Falando em me apaixonar, a pessoa por quem nunca deixei de nutrir sentimentos está namorando. O namorado é alguém por quem eu não nutriria sentimentos amorosos caso eu fosse atraído por homens. O que só reforça que somos todos diferentes mesmo em gosto e em todo o resto.
Consigo desligar esse sentimento? Nunca encontrei o "botão de liga/desliga" da paixão e não devo encontrar tão cedo. Paciência, é o custo de ser humano apesar de tudo. Eu poderia julgá-la por ter se permitido esperar tanto por aquele mesmo alguém ao longo de anos, mas eu fiz exatamente a mesma coisa. A única diferença é que pra ela deu certo.
As coisas parecem estar me estressando facilmente nos últimos tempos, mas enquanto eu escrevia essa frase, passei a considerar a hipótese de eu estar me estressando no mesmo nível do que sempre.
Estamos vivendo uma pandemia e fazer coisas em geral não é recomendável, o que é, como se pode imaginar, um grande transtorno. Não é um transtorno maior do que morrer, mas ainda assim um incômodo considerável. Meus planos para depois da pandemia incluem ir ao Poupa-Tempo e renovar meus documentos, com laudo médico do meu diagnóstico de autista. Dessa forma vou poder usufruir dos benefícios que me são garantidos por lei. Isso deve compensar algumas irritações que eu passei até aqui e que vou continuar passando até o fim dos dias. Felizmente me lembro do diálogo entre Geordi LaForge e Riva em Star Trek TNG 2x05 sobre ser diferente. E olha só, Star Trek aparecendo de novo.
A quem estiver lendo, reforço meu desejo de um feliz ano novo,
Atenciosamente,
Pedro Alcântara
sexta-feira, 20 de novembro de 2020
Recanto
Ontem fui à casa da ***** com alguns outros amigos que estiveram expostos ao mesmo risco. Apenas para situar você, que está lendo isso em outro tempo, estamos passando por uma pandemia, então eventos sociais como esse ao qual compareci ontem não são a melhor ideia do mundo... A não ser que seja um grupo de pessoas que trabalham juntas, porque nesse caso não faz diferença e vocês não vão aumentar a propagação da doença mais do que já fazem só por sair para trabalhar.
Senti muita coisa e quase sentir vontade de chorar no caminho de volta para casa, nem por felicidade nem por tristeza, apenas uma válvula de escape. Infelizmente, o choro não sai tão facilmente para mim ainda e eu tenho que aceitar apenas um misto de cansaço e agitação quando esse tipo de coisa acontece.
Os vai-e-vens dessa pandemia são bastante exaustivos e eu espero sinceramente que isso acabe logo porque não aguento mais ter que ouvir pessoas falando coisas que não condizem com a realidade apenas para adequar os fatos às suas decisões em vez de seguir o caminho contrário.
A pizza do Recanto, felizmente, continua incrível.
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Estou me sentindo sozinho nos últimos tempos, sentimento que me acompanha quase a todo momento nos últimos 10 anos, mas isso não está me incomodando tanto quanto costuma incomodar. Feliz quase aniversário para mim.
sexta-feira, 16 de outubro de 2020
Gosto de você (vitória dos daleks)
Não é o verbo.
De vez em quando a gente percebe as coisas de um jeito diferente. Vê um filme, por exemplo, e sente ele de outro jeito. Ouve uma música e nota um instrumento escondido ali no meio. Penso que me sinto assim em relação à solidão. Não quero soar depressivo ou deprimido ou dramático demais. Não é o caso. Talvez fosse, em outro dia. No momento, sinto apenas falta da conexão carnal com alguém. O toque de alguma mulher tem feito falta a mim. Acredito que mais pessoas passem por isso atualmente por conta da quarentena auto-imposta pela qual estamos passando. Faz parte da vida, em algum momento passa. Infelizmente essa é uma ausência que senti por mais tempo que outras pessoas e que estou sentindo há mais tempo do que a maioria das pessoas costuma passar.
Claro, faz parte da vida os momentos de solidão, e a possibilidade de contemplação do universo pode ser deliciosa e conveniente. Não existe uma regra para o que é certo e para o que é errado. Meu maior anseio, entretanto, quanto a esse tópico, é aprender a dominar o que há em mim que serve para conversar com o mundo de fora da minha mente, para que eu possa dominar também como eu posso buscar satisfazer os desejos e vontades que me acometem de tempos em tempos, como acontece a qualquer ser humano.
Ser mais adulto seria possível? As responsabilidades que assumo e que cumpro já não fazem de mim adulto o suficiente? Poderia meu tom de voz ser mais maduro do que é? Até que ponto eu posso melhorar o que eu sou para agradar os outros sem machucar meu eu verdadeiro?
Obrigado pela atenção, leitor imaginário. Com você, nunca estou plenamente a sós.
sábado, 10 de outubro de 2020
Briga na internet
Todo dia a mesma coisa, cara, é um saco. Os caras não se aguentam, não se aceitam e precisam encher o saco dos outros. Eu faço o quê? Me manifesto. E eu não acho que tô errado. Se tem uma coisa que não me causa arrependimento é defender o respeito às outras pessoas. Eu sou várias coisas que escolhi ser e também várias coisas que não posso escolher mudar. Quero ser respeitado por isso, então eu respeito todo mundo. Deus me livre ser mala e babaca com uma galera aí.